6 Mitos sobre o Aprendizado da Leitura

Atualizado: 3 de Set de 2019

A criança pode aprender a ler sozinha, pois ler é um processo natural



Aprender a falar é sim um processo natural. Basta que a criança seja exposta à comunicação oral – e não apresente problemas nos aparelhos fonador e auditivo, nem possua patologias cerebrais que comprometam a fala ou o desenvolvimento da linguagem. Embora algumas práticas possam propiciar ou mesmo acelerar esse aprendizado natural – como conversar freqüentemente com a criança, ler para ela, realizar a modelagem da linguagem e adotar outras formas de estimulação -, não é necessária uma instrução explícita, formal e estruturada para que a criança aprenda as primeiras palavras e, pouco depois, a formular frases simples.

Já a aquisição da leitura – e da escrita – não é natural. Leitura e escrita são artefatos culturais, foram inventadas pelo homem. Do mesmo modo que uma criança não aprende a fazer notações musicais sem instrução alguma, ela também não é capaz de aprender sozinha as relações entre grafema (letra) e fonema (“som”) necessárias para realizar a leitura.

Se ler fosse natural, praticamente todas as pessoas estariam lendo, não precisaríamos nos preocupar com o analfabetismo, não precisaríamos de escolas para alfabetizar. Mas esse não é o caso. Segundo a última pesquisa sobre analfabetismo e analfabetismo funcional no Brasil, realizada pelo Instituto Paulo Montenegro em 2016, 4% da população com idade entre 15 e 64 anos é analfabeta e 23% está num grupo dito “rudimentar”, ou seja, realiza apenas a localização de informações explícitas, expressas de maneira literal, mas dificilmente consegue localizar mais de uma informação em textos de extensão média. Dados como esse evidenciam que ler não se aprende naturalmente, sem instrução explícita.



A escrita alfabética se baseia em um código. Nele, unidades gráficas de escrita representam unidades fonológicas da fala. A relação entre essas unidades pode parecer óbvia para alguém que já é alfabetizado, mas na realidade não é. E nisso reside a dificuldade tanto para quem ensina quanto para quem aprende a ler.

Algumas crianças criadas em ambientes em que há bastante estimulação da fala e da linguagem e em que a prática da leitura é comum parecem aprender a ler “sozinhas”. O pai apresenta à filhinha a palavra “bola” escrita no papel, ela “lê” a palavra em voz alta e os adultos festejam. Mas olhar para a “forma” de algumas palavras e repetir um nome que já ouviram associado àquela “forma” não é o suficiente para dizermos que uma criança está lendo. Se lhe apresentarmos pseudopalavras ou palavras com as quais nunca teve contato e pedirmos para lê-las, veremos que não conseguirá fazê-lo sem que alguém lhe tenha ensinado explicitamente a decodificar, a converter grafemas em fonemas.

 É prejudicial iniciar o processo de alfabetização antes dos 5 anos

Muitos pedagogos afirmam que iniciar a alfabetização antes dos 5 anos é precoce e poderia causar grandes danos à criança. “Ela não tem maturidade. Ela precisa brincar! Isso é uma violência, uma tortura!” Há também quem diga que fazer isso é inútil, pois antes dos 5 anos a criança não tem condições para ser alfabetizada.

Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que iniciar o processo de alfabetização não significa sentar-se diante de seu filho e passar horas obrigando-o a decorar o “beabá”, o que de fato deve ser torturante para uma criança de 3 ou 4 anos. No começo, o que se deve fazer é preparar a criança, promovendo a aquisição de algumas habilidades fundamentais para a alfabetização.

Numa pesquisa  – realizada na Finlândia ao longo de 18 anos, foram acompanhados 3 grupos de crianças com risco de se tornarem disléxicas. Observou-se que crianças com baixo desempenho em atividades de consciência fonológica dos 3 aos 5 anos, em geral, não tinham sucesso em leitura aos 7. Por outro lado, as crianças que tiveram um alto desempenho em leitura aos 7 anos, dos 3 aos 5 haviam apresentado alto desempenho em atividades de consciência fonológica, conhecimento de letras, memória fonológica, linguagem receptiva, linguagem expressiva, etc. Ou seja, desenvolver essas habilidades antes da alfabetização propriamente dita é fundamental! E, como vimos, não é algo torturante ou prejudicial para a criança.

Se a criança lê um texto com fluência, ela é capaz de compreendê-lo

Se uma criança lê fluentemente, sem tropeços, é sinal de que aprendeu a converter grafemas em fonemas e já o faz com certa facilidade e velocidade. Mas isso não quer dizer que ela esteja compreendendo o que lê. Ler não é compreender! Compreender é um segundo passo e envolve outras habilidades, como, por exemplo, vocabulário rico, conhecimento de estruturas sintáticas mais complexas do que as empregadas coloquialmente, memória auditiva de curto prazo bem treinada e uma capacidade razoável de manter a atenção e o foco enquanto lê.

Na verdade, não é incomum que crianças consigam ler bem, sem contudo compreender o que lêem. Há inclusive muitos adultos que padecem desse problema. É importante detectar cedo o problema e tentar remediá-lo, lendo diariamente para a criança, incentivando-a a ler por conta própria depois de alfabetizada e exercitando a memória fonológica.

 É fundamental ensinar a decodificar (ler) e compreender textos simultaneamente

Na  fase  inicial  do  aprendizado  da  leitura, ou seja, na alfabetização, é preciso concentrar os esforços no ensino explícito e sistemático do princípio alfabético e das regras de decodificação. A criança precisa primeiro aprender os fonemas (“sons”), os grafemas (letras) e as relações entre eles e adquirir consciência de sílabas, palavras e frases, ou seja, aprender a realizar as operações mais básicas da leitura.

É óbvio que a compreensão do texto é o objetivo da leitura e não deve ser negligenciada. Afinal, nós lemos para compreender. No entanto, não podemos exigir que uma criança que ainda está aprendendo a decodificar compreenda um texto: ela já está empregando muito tempo e esforço para juntar as letras em sílabas e as sílabas em palavras – pois ainda não domina o princípio alfabético -, tem dificuldade para ler palavras mais longas ou desconhecidas e não é capaz de identificar palavras automaticamente. Se exigirmos que a criança compreenda um texto que mal consegue ler, isso poderá gerar uma sobrecarga cognitiva que atrapalhará a aquisição das habilidades fundamentais para a compreensão de textos. Além disso, é muito provável que ela associe a leitura a um trabalho desgastante e chato – algo que demanda um esforço além de suas capacidades.

Ora, a maioria dos métodos de ensino de leitura do Brasil, enraizados na noção de que ler é compreender, faz exatamente isso! Eles buscam ensinar a ler e compreender textos simultaneamente e usando os mesmo materiais.

Há palavras e textos complicados demais para as crianças pequenas

Muitos pais têm o compreensível hábito de corrigir ou adaptar textos enquanto lêem para seus filhos pequenos. Pensam que algumas palavras são muito difíceis e que seus filhos não as compreenderão. Mas é fundamental que as crianças ouçam palavras novas! Essa exposição é justamente uma das chaves para o enriquecimento do vocabulário.

Assim, não se deve ceder à tentação de trocar uma palavra “difícil” por um sinônimo mais fácil; nem à de sempre abandonar a leitura de livros mais desafiadores. Muitas vezes a própria criança interromperá a leitura para perguntar pelo significado de uma palavra. Nesse caso, o adulto poderá reler a frase em que a palavra se encontra, para que a criança deduza o sentido pelo contexto, dizer um ou dois sinônimos ou explicar o termo.

Esse vocabulário de escuta irá, depois, converter-se em vocabulário de leitura e escrita. Depois de alfabetizada eficazmente, a criança será capaz de ler e escrever aquelas palavras “difíceis” que os adultos receavam em apresentar-lhe quando pequena.

 A dislexia é uma doença genética

Antes de falar sobre as causas da dislexia, é preciso lembrar que ela é um transtorno do desenvolvimento da aprendizagem que afeta a leitura, não uma doença. A esse transtorno estão associados déficits cognitivos, dentre os quais o principal é de processamento fonológico. Esse déficit pode se manifestar entre os 2 ou 3 anos, com um atraso do desenvolvimento da linguagem oral ou dificuldade de articulação. Mas geralmente as dificuldades no processamento fonológico só começam a ser percebidas quando a criança está aprendendo a ler.

Além disso, a dislexia em si não pode ter causa genética, já que a leitura e a escrita são criações humanas: não existiram desde que existe o homem, não são habilidades biologicamente primárias e não constituem uma parte específica de nosso código genético.

O que pode ter, de fato, causa neurobiológica, associada a fator genético, é o déficit de processamento fonológico a que está ligada a condição de disléxico. No entanto, ele pode ter sido causado por uma uma estimulação pobre – principalmente da fala – na fase inicial do desenvolvimento da linguagem ou por um mau ensino; ou por ambas as coisas.

Na verdade, há poucos fatores genéticos que poderiam levar a dificuldades de leitura. A maioria dos fatores que levam a tais dificuldades são ambientais.

De todo modo, esse déficit pode ser prevenido, antes mesmo de qualquer sintoma aparecer,  por meio da estimulação precoce da fala e da linguagem e de um bom programa de pré-alfabetização; pode ser detectado em tenra idade, durante o período de alfabetização, e então corrigido; e pode também ser remediado quando detectado após a alfabetização, por meio de intervenção clínica e/ou pedagógica.

Se uma criança já foi alfabetizada há um bom tempo, mas ainda tem muita dificuldade para ler (comete muitos erros na leitura oral – omite, troca ou acrescenta fonemas, sílabas ou palavras -, lê muito devagar, tem dificuldade para se lembrar do que leu, para compreender textos e fazer inferências), pode ser que a diagnostiquem disléxica.

Independente do diagnóstico, se essa criança foi alfabetizada atualmente no Brasil, o mais provável é que não a tenham ensinado de maneira eficaz a ler e escrever. Há uma verdade desagradável revelada nos resultados de exames que avaliam a leitura e compreensão de textos de nossos estudantes, como o PISA e o SAEB: uma quantidade muito grande de crianças e adolescentes no país apresenta graves problemas de leitura. Isso se deve, em grande medida, não a fatores genéticos, mas à falta de estimulação da fala e da linguagem nos primeiros anos de vida e ao emprego de métodos ineficazes de alfabetização.

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